A esposa principal era uma filha de Òṣun, que era encarregada de zelar pelos alvos paramentos
As outras mulheres invejavam a posição da filha de Òṣun e muitas vezes criaram situações embaraçosas para prejudicá-la.
Um dia, a filha de Òṣun limpava as ferramentas de Òṣàlá e as deixou no sol para secar enquanto cuidava de outras coisas.
Vieram as duas outras mulheres e jogaram os objetos de Òṣàlá no mar.
No dia da festa a filha de Òṣun nem levantou da cama, estava abalada com a alma ferida.
Sabia que na festa Òṣàlá iaria querer usar os seus símbolos.
Uma meninazinha que ela criava lhe pediu para que se levantasse, mas ela se recusou a fazê-lo, tão grande o desânimo que a possuía.
Foi quando passou na rua um pescador vendendo peixes e a mulher mandou a meninazinha comprar alguns para a festa.
Levantou-se e foi a cozinha prepar os peixes e a abrir os peixes, encontrou as ferramentas dentro deles.
As outras duas não desistiram de prejudicar a rival esposa.
Chegou então o momento da festa e no ponto privilegiado da sala, ocupava seu trono Òṣàlá.
Sentada numa cadeira, à sua direita, encontrava-se a esposa principal, a filha de Òṣun enquanto as duas outras acomodavam-se em cadeiras do lado esquerdo.
Aproveitando-se de um momento em que a primeira esposa se ausentou, retirando-se da sala para providenciar a coroa de Òṣàlá, as duas outras puseram na sua cadeira um preparado mágico.
No momento em que ela voltou à sala e se sentou, sentiu o assento pegajoso, molhado quente e estranho.
Ela sangrava, deu-se conta com horror que estava acontecendo.
Saiu correndo em desespero, sabendo que infringira um tabu do marido Òṣàlá.
Òṣàlá não estava acreditando que ela teria se apresentado diante dele em estado de impureza e a expulsou de casa por quebra do tabu.
A triste esposa correu para a casa de sua mãe em busca de socorro.
Òṣun a recebeu carinhosamente e cuidou dela. Triturou folhas e preparou-lhe um banho na bacia.
Banhou seu corpo, lavou o sangue, e vestiu ela em panos limpos e a deixou repousando numa esteira sob a sombra de uma árvore.
Quando Òṣun tirou a filha do banho, o fundo da água era vermelho e não era sangue, eram penas vermelhas do papagaio-da-costa.
No fundo da bacia penas vermelhas estavam depositadas, penas da cauda do papagaio-da-costa, que os iorubás chamam edidé.
Penas raríssimas e muito apreciadas que os iorubás chamam Ekodidé.
Penas que o próprio Òṣàlá considerava um riquíssimo objeto de adorno, das quais os caçadores não conseguiam arranjar-lhe sequer um exemplar.
A filha de Òṣun passou a ir às festas enfeitada com tais penas e um rumor de que Òṣun tinha muitos Ekodidés chegou aos ouvidos de Òṣàlá.
Como ele não conseguia as penas de papagaio pelas mãos dos caçadores, foi um dia à casa de Òṣun perguntar por elas e surpreendeu-se.
Lá estava sua mulher, a filha de Òṣun, coberta com as preciosas plumas.
Òṣàlá acabou perdoando a esposa e a levou de volta para casa.
Com a filha reabilitada e Òṣàlá satisfeito, Òṣun completara seu prodígio.
Òṣàlá ornou com uma das penas vermelhas sua própria testa e determinou que a partir daquele dia as sacerdotisas dos orisás, as iaôs, quando iniciadas, deveriam também usar o Ekodidé enfeitando suas cabeças raspadas e pintadas, pois assim seriam mais facilmente reconhecidas pelos orisás que tomam seus corpos em possessão para dançar nas festas.
